08/03/2020
Investidores estrangeiros correm do Brasil e briga entre executivo e legislativo é um dos motivos, apontam consultorias
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Leia reportagem de O Globo deste domingo:
RIO E SÃO PAULO - Após dois anos de recessão, seguidos por três anos de crescimento baixo, o Brasil saiu do radar de investimentos de grandes impresas internacionais. As dificuldades em avançar na agenda de reformas, os constantes ruídos políticos entre governo e Congresso e a falta de regras claras para os negócios são fatores apontados por empresários, especialistas e consultores para a perda de espaço do Brasil justamente quando há, no mundo, capital disponível para investir em bons projetos.
Em 2019, pela primeira vez, o país desapareceu do índice Global de Confiança para Investimentos Estrangeiros, da consultoria americana Kearney.
O índice mede a perspectiva de investimento nos próximos três anos, a partir de entrevistas com 500 executivos das maiores multinacionais, compondo uma lista de 25 países. Até 2014, o Brasil estava no top 5.
"Um investidor de Cingapura resumiu assim a situação: 'O Brasil e uma mina de ouro, sabemos que há ouro, de boa qualidade. Temos interesse, capacidade técnica e recursos para explorar este ouro. Mas não fazemos isso pois tememos que a mina desabe sobre a nossa cabeça' - conta Paulo Resende, professor da Fundação Dom Cabral.
No ranking da Kearney, o Brasil caiu para sexto lugar em 2015, 16° em 2017 e foi para a lanterna no ano seguinte, até deixar a lista em 2019. Segundo Mark Essle, sócio da Kearney, crescimento baixo inibe investimento:
A multinacional está cansada do Brasil. Nos últimos cinco anos, pelo menos, não tem retorno. O CEO todo ano tem de explicar a matriz por que não está ganhando dinheiro. Por isso, a queda. E o cansaço da falta de crescimento.
A demanda é um dos principais fatores que o investidor olha ao decidir o que fazer com o dinheiro, diz Viktor Andrade, sócio da consultoria EY:
"O maior entrave é a recessão e o baixo crescimento dos últimos anos. Isso reduz renda, diminui capacidade de consumo. Quando havia crescimento, burocracia e complexidade tributária eram entraves. Eles continuam, mas em segundo lugar.
Ausência de reformas
Se a falta de crescimento é um problema, a ausência de uma agenda de reformas que abriria espaço para ele é outro inibidor, dizem especialistas.
Em 2019, o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) avançou apenas 1,1%, informou o IBGE semana passada, e a taxa de investimento - o quanto do PIB é destinado a aumentar a capacidade produtiva - ficou em 15,4%. Em 2013, antes do início da crise econômica, era de 20,9%.
"Em 2020, é preciso acelerar as reformas e investir na capacidade de articulação do governo para criar bases para um 2021 melhor", diz André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company.
Para analistas, a crise entre Planalto e Congresso cria instabilidades que podem afastar investidores, pois passa a sensação de que o país está sem rumo:
"A incerteza política e a dificuldade de articulação entre Executivo e Legislativo desestabilizam as instituições. O cálculo de atuação política do Planalto está numa posição de antagonismo ao crescimento do pais", alerta Cláudio Frischtak, da Inter. B.
Para Resende, da Fundação Dom Cabral, o pais vive uma crise institucional no plano federal, que muitas vezes se repete em governos locais:
"Você imagina a reação de um investidor ao ver tratores da prefeitura do Rio, sob mando do prefeito Marcello Crivella, destruírem praças de pedágio da Linha Amarela?"
O Investimento Estrangeiro Direto (IED) continua vindo, mas o país perde espaço. Éramos o quarto principal destino e caímos para sétimo.
Além disso, o IED - que somou US$ 80 bilhões em 2019 - foi direcionado para comprar empresas, não construir fábricas. Tanto que as fusões e aquisições bateram recorde em 2019, crescendo 39% ante 20l8.
"O momento é bom para investir. A despeito das agruras políticas, a equipe econômica vem reduzindo o déficit público, fazendo privatizações e conseguiu aprovar a reforma da Previdência. Há boa perspectiva no futuro", pondera Leonardo dell'Oso, da PwC.
Esses investimentos também têm sido concentrados em poucos setores, ressalta Luís Afonso Lima, presidente da Sobeet, entidade que estuda efeitos da globalização. A maioria vai para os setores elétrico e de óleo e gás.
São ativos que já existem e não geram nova capacidade produtiva. Mas isso é importante, enfatiza Lima, porque o Estado não tem condição de mantê-los.
Capital abundante
O déficit fiscal deve ser de R$ 124 bilhões este ano. Por isso, é preciso criar boas condições e aproveitar oportunidades para atrair o investidor privado. Hoje, com juros baixos - ou até negativos - em muitos países, há capital disponível em busca de bons ativos.
"O capital privado existe de forma abundante globalmente. O que falta, aqui, são projetos inseridos numa regulamentação que passe confiança ao investidor", afirma Essler, da Kearney.
Uma forma de atrair mais investidores seria aprimorar a política ambiental:
"Ela prejudica a imagem do Brasil, pondo em xeque a decisão de investimento. Mudança climática é assunto de primeira ordem. O acordo Mercosul-União Européia está sendo questionado nessa área", diz Frischtak.
No ano passado, gestores de fundos que tem US$ 41 trilhões para investir se uniram no Climate Action ioo+, que pressiona empresas nas quais são acionistas por práticas que reduzam o aquecimento global.
"A elite do investimento mundial está comprometida com a greenfinance (finanças verdes). Ouvi algumas vezes que o Brasil não foi considerado por questões ambientais", conta Resende, da Fundação Dom Cabral.
As para o baixo apetite
Longo período de crescimento baixo
Dois anos de recessão e três anos de expansão do PIB pouco acima de 1% tornam o país menos atraente para investidores globais. Executivos de multinacionais tem dificuldades de justificar a seus acionistas uma aposta no Brasil após seguidos resultados frustrantes.
Demora nas reformas e falta de regras claras
Depois da Previdência, empresários esperam a aprovação da reforma tributária e de marcos regulatórios para setores importantes, como o saneamento. Sem saber ao certo qual será a carga de impostos do país ou as regras para investir em alguns setores, os negócios ficam travados.
Ruídos políticos e institucionais
A disputa entre Congresso e Planalto cria um clima de instabilidade. Episódios locais, como a ameaça da prefeitura do Rio de suspender a concessão da Linha Amarela - em que a praça do pedágio foi destruída por retroescavadeiras, também geram insegurança entre os investidores.
Preocupação ambiental
As empresas tem de comprovar aos acionistas que não operam em países que desrespeitem o meio ambiente. Hoje, gestores de investimentos que, juntos, administram ao menos US$ 41 trilhões fazem parte de uma coalizão global que cobra das empresas o combate às mudanças climáticas.
Fragilidade do setor publico
O governo brasileiro tem enorme déficit fiscal. A projeção para este ano é de um rombo de R$ 124 bilhões. Sem recursos para investir, cabe ao governo coordenar as expectativas e criar condições para que o setor privado faça investimentos, afirmam os especialistas.
Volatilidade do dólar e crise global
O dólar alto deixa ativos brasileiros baratos. Mas a disparada na cotação foi repentina e o empresário teme nova mudança brusca no câmbio, o que dificulta fazer contas na decisão de investimento. E a epidemia global de coronavírus leva o investidor a sair de ativos de risco, como países emergentes.