19/05/2019
As investigações do Ministério Público e o medo do presidente
[0] Comentários | Deixe seu comentário.No Globo deste domingo:
entre dez pessoas acusadas de malfeitos. Não precisava, o presidente não é acusado deste crime. Mas a declaração serviu para revelar um homem acuado, com medo.
Bolsonaro está com medo de ser pego com a mão na botija? Não. Até porque não dá para afirmar isso por ora. É muito cedo.
Mas ele está tremendo de pavor de ver um filho seu, ou quem sabe dois deles, acertando contas com a Justiça. A saída possível para o Zero Um fica cada dia mais difícil.
O Ministério Público já chama de "organização criminosa" o grupo que o filho do presidente montou na Assembleia Legislativa do Rio. Ele, sua mãe, o seu irmão mais novo (o que não está na política), a ex-mulher do seu pai, primos, amigos e funcionários do seu gabinete terão suas contas bancárias e suas declarações de renda escarafunchadas pelo MP e pela Polícia Federal.
No total, 55 funcionários, 12 pessoas da família Bolsonaro ou diretamente ligadas a ele e nove empresas tiveram seus sigilos fiscais e bancários quebrados por ordem da Justiça.
Serão analisadas contas e declarações de renda de um período de 11 anos. Foi nesse intervalo que a mulher do presidente, Michelle Bolsonaro, recebeu cheques do assessor/motorista Fabrício Queiroz. Dinheiro que, segundo o marido dela, foi pagamento de um empréstimo que o então capitão deputado fez ao assessor/motorista do filho.
Esquisito? Sim, mas tudo bem. As contas abertas podem comprovar ou desmentir esta alegação.
De qualquer forma, também não é isso que assusta JairBolsonaro. Pela Constituição, ele não pode ser julgado, portanto nunca será condenado, por crimes que não tenham sido cometidos em ligação direta com o exercício de seu mandato.
A ele nada ocorrerá mesmo que o filho, ou os dois filhos, a mulher e a ex-mulher sejam condenados por mau uso do dinheiro público.
O problema é outro. O que arrepia o presidente é a hipótese de o núcleo formado por ele e pelos filhos Flávio, Carlos e Eduardo ser quebrado. Se isso acontecer, sua integridade moral e psicológica pode ruir. E com ela o seu projeto de poder.
Escrevi aqui no final de março sobre um estudo em que o economista Dado Salem, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e especialista em gerir conflitos familiares, mostra como são estruturadas as "famílias simbióticas indiferenciadas". Elas agem como um bloco monolítico e que não se quebra por razões internas. São fechadas em si e agem como um ser único. Assim funcionam Jair Bolsonaro e seus três filhos políticos. A única chance de um núcleo desses se dissolver é se um dos seus vértices resolver fazer um voo solo, ensina Salem. Nesse caso, o sistema de funcionamento da família seria aliviado de sua permanente ansiedade, abrindo espaço para a entrada de outros no núcleo indivisível.
O que seria a sua destruição como bloco. Como esta hipótese não é contemplada no caso dos Bolsonaro, a alternativa do núcleo só se romperá quando e se o Zero Um for condenado.
Se Flávio for afastado da família compulsoriamente, em razão do resultado das investigações, a vida da família será bruscamente modificada. Com um dos pés quebrados, o governo Bolsonaro também sofrerá consequências, avalia Salem. A saída de um dos vértices abrirá espaço para a possibilidade de relacionamentos construtivos que hoje estão fora da bolha acabarem sendo absorvidos pelo núcleo dividido.
Desse ponto de vista, o resultado da investigação tem o potencial de até mudar o governo para melhor. É disso que Bolsonaro tem medo.